terça-feira, 25 de setembro de 2012

Se até amanhã de manhã eu não te matar, te escreverei uma carta

Chove. Vê-se uma sala praticamente vazia e empoeirada. Apenas dois móveis: uma cadeira-namoradeira de dois lugares e um ventilador ligado em rotação bem ao lado. Uma luz fraca entra por uma suposta janela à esquerda do palco e uma lâmpada incandescente apagada presa por um fio ao teto desce quase até a altura do rosto de Juju, que está sentado na cadeira.

(entra Rosá)

Rosá (ansiosa, hesitante) - Eu vim sem querer, mas tô aqui tão feliz de te ver. Juro! Será que era pra ser assim? Será que podia ser assim? (pausa) Se eu não viesse te ver eu ía certamente morrer, eu vi a morte. Eu estava mortificada. Eu preciso perder você de alguma maneira. Eu estou mortificada. Cruz! Você... você é cruz! (chora repentinamente) Será que o amor é tudo que existe? Será que o amor é tudo que existe!? (se estapeia)

Juju não se move. Permanece olhando para frente.
Silêncio, somente os sons dos tapas que Rosá dá em si mesma.

Juju - Agora chove.

(pausa longa)

Juju - ... você tem razão..

Juju vira-se para o lado em que está Rosá ainda debatendo-se cada vez mais intensamente, ela para subitamente ao ouví-lo. Ele se levanta.

Juju - ... "o amor é tudo que existe."

Juju sai caminhando e passa por Rosá sem dar-lhe atenção. Antes de deixar o palco, abre um guarda-chuva imaginário, com o qual a cutuca. Sai.
Rosá fica no chão e chora. Depois se levanta e vai até a cadeira e beija o assento onde antes estava o rapaz. O vento do ventilador move seus cabelos. Beija cada vez mais intensa e velozmente a cadeira. Som de chuva se intensifica. Luz cai.